ESTUDO APROFUNDADO
Judaísmo x Cristianismo
Texto
base: Isaías 53, Textos do Talmud e a Profecia de Daniel 9.
PARTE
1 — ISAÍAS 52:13–53:12:
O
Servo Sofredor
ESTUDO COMPLETO 2
Versículos selecionados:
- Isaías 52:13–15 — "Eis que o meu Servo prosperará; será exaltado, elevado e muito engrandecido... assim causará admiração a muitas nações; os reis fecharão a boca por causa dele."
- Isaías 53:1–12 — "Quem creu na nossa pregação?... Ele foi desprezado e rejeitado entre os homens, homem de dores... certamente levou as nossas enfermidades e carregou as nossas dores... mas ele foi ferido pelas nossas transgressões e esmagado pelas nossas iniquidades... o Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de todos nós... como um cordeiro foi levado ao matadouro... foi sepultado com os ímpios... embora não tenha praticado violência... e o Senhor teve o prazer de esmagá-lo com sofrimento... quando a sua alma se oferecer em sacrifício..."
1. LEITURA CRISTÃ — O SERVO = JESUS, O
MESSIAS
A leitura cristã é
unânime: o Servo é uma pessoa individual — o Messias — que sofre e morre pelos
pecados de outrem.
- Mateus 8:17 cita diretamente Isaías
53:4: "Ele tomou as nossas enfermidades e carregou as nossas
doenças" — aplicando a Jesus.
- João 12:38 cita Isaías 53:1 como
explicação por que muitos não creram em Jesus.
- Atos 8:30–35 — Filipe explica ao
eunuco que a passagem de Isaías 53 se refere a Jesus.
- 1 Pedro 2:22–25 — cita Isaías 53:9,5 e
53:6: "Não cometeu pecado... pelas suas feridas fostes
sarados".
Argumentos principais:
1.
O Servo sofre por outros ("pelas
nossas transgressões") — não por seus próprios erros.
2.
É descrito como inocente ("não havia
dolo na sua boca") — coisa que nunca se diz de Israel como nação.
3.
Morre e é sepultado, depois vive novamente
("prolongará os seus dias") — impossível para uma nação.
4.
É colocado em contraste com "o meu
povo" (53:8) — logo, não é o povo, mas alguém distinto dele.
2. LEITURA JUDAICA — O SERVO = ISRAEL, O
POVO DE DEUS
A leitura majoritária
judaica hoje identifica o Servo como o próprio povo de Israel sofrendo entre as
nações.
- Isaías 49:3 — "Tu és o meu
Servo, ó Israel" — Deus declara explicitamente que o Servo é
Israel.
- Rashi (1040–1105) — Comentário a
Isaías 53: "O Servo é Israel, que sofre entre as nações, e elas o
reconhecem no fim dos tempos."
- Maimônides — não nega o sofrimento,
mas ensina que o Messias não vem para sofrer, mas para reinar. O
sofrimento é da nação, não do líder.
Argumentos principais:
1.
Quatro "Cânticos do Servo" em
Isaías (42; 49; 50; 52–53) — em 49:3 Deus diz claramente: "Tu és meu
Servo, Israel".
2.
O Servo "será exaltado" depois do
sofrimento — Israel é exaltado após o exílio, não uma pessoa executada.
3.
Nunca na Torá ou nos Profetas há previsão
de Messias que morre pelos pecados alheios — essa ideia não existe na
literatura judaica anterior ao cristianismo.
4.
"Não fareis imagem nem
semelhança" — aplicar isso a uma pessoa adorada como Deus = idolatria.
3. DETALHE CRUCIAL: As Fontes JUDIAS
ANTIGAS também liam como MESSIÂNICA!
Antes de Rashi (séc.
XI/XII), várias fontes judaicas interpretavam Isaías 53 como referindo-se ao
Messias, não a Israel:
- Targum de Isaías (séc. I–II d.C.,
tradução/paráfrase aramaica): abre 52:13 com: "Eis que o meu
Servo, o MESSIAS, prosperará..." — lê claramente como figura
messiânica individual!
- Talmud (Babá Batra) — em trechos
antigos, identifica o Messias como "o que sofre" com base em
Isaías 53.
- Pesikta Rabbati (séc. IX): o Messias
sofre antes de reinar — ideia que já existia no judaísmo antes de ser
"rejeitada" como resposta ao uso cristão.
Resumo:
A leitura "Servo = Israel" se tornou dominante a partir do século XII,
em grande parte como reação à pressão cristã — que usava Isaías 53 para provar
que Jesus era o Messias e que os judeus o rejeitaram. A leitura messiânica não
era invenção cristã, mas foi abandonada na comunidade judaica por causa da
divergência sobre Jesus.
PARTE
2 — JESUS NAS FONTES RABÍNICAS E NO TALMUD
AVISO
IMPORTANTE
As referências a
"Yeshu" no Talmud não são biografias históricas de Jesus de Nazaré. A
maioria dos relatos:
- Aparecem em épocas diferentes da vida
de Jesus (até 100 anos de diferença)
- Detalhes não coincidem com os
Evangelhos
- Foram alterados e censurados ao longo
dos séculos por autoridades cristãs
- Muitas vezes referem-se a outras
pessoas chamadas Yeshu, não a Jesus de Nazaré
1. AS PRINCIPAIS PASSAGENS
a. Sanhedrin 43a —
Execução de Yeshu
"No dia da véspera da
Páscoa, Yeshu ha-Notzri foi apedrejado e enforcado... Um arauto proclamou
quarenta dias: 'Yeshu o Nazareno é levado a apedrejamento porque praticou
feitiçaria, desviou o povo e o levou à idolatria. Quem souber algo em sua defesa,
venha!' Mas ninguém apareceu."
Diferença com os
Evangelhos: Jesus foi crucificado por romanos, não apedrejado por tribunal
judeu; não houve proclamação de 40 dias. Os detalhes divergem — trata-se de uma
versão polêmica, não histórica.
2. Sanhedrin 107b —
Discípulo desobediente
Narra que Yeshu foi
discípulo de Rabi Yehoshua ben Perahya (séc. II a.C. — um século ANTES de Jesus),
se afastou do caminho reto, passou a adorar ídolos. Cronologia impossível —
confirma que não é o Jesus dos Evangelhos.
3. Shabbat 104b /
Sanhedrin 67a — Ben Stada / Ben Pandera
Mencionam "filho de
Stada" ou "filho de Pandera" — alegando nascimento ilegítimo.
Novamente, datas não coincidem com Jesus de Nazaré. Parecem referir-se a outra
figura herética de época diferente.
4. O Que Rabi Nahmânides Disse (Debate
de Barcelona, 1263)
No debate público entre
cristãos e judeus, o rei exigiu que Nahmânides explicasse Isaías 53. Ele
respondeu com honestidade notável:
"Seja como for, vós
não encontrareis em nossos sábios, de maneira explícita, que o Servo sofredor
seja o Messias... Mas eu, ousarei dizer que é possível, sim, que o Messias
sofra e depois seja exaltado. Porém, ele deve sofrer antes de começar a reinar,
e deve realizar todas as profecias de paz e governo — e isso Jesus não
fez."
Ou seja: Nahmânides NÃO
negou que o Messias pudesse sofrer — negou que Jesus tivesse feito a segunda
parte: reinar e trazer a paz prometida.
5. Maimônides sobre Jesus (Leis dos Reis
11:10–12)
"Também a respeito de
Jesus o Nazareno, que pensava ser o Messias e foi executado pelo tribunal —
Daniel já havia profetizado a respeito dele: 'os renegados do teu povo se
exaltarão para cumprir a visão, e tropeçarão'... Pois todos os profetas disseram
que o Messias libertará Israel, salvará o povo, reunirá os exilados e
confirmará os mandamentos — enquanto este causou que Israel fosse destruído
pela espada, os sobreviventes dispersos e humilhados, e a Lei trocada por outra
religião... Mas ninguém pode compreender os desígnios do Criador, pois seus
caminhos não são os nossos. Toda essa obra de Jesus serviu para preparar o
caminho, para que o Messias finalmente venha e todo o mundo saiba que o Reino
pertence ao Senhor."
Surpreendente: Maimônides diz que Jesus fez parte do plano divino — mas como "preparação", NÃO como o próprio Messias.
PARTE
3 — DANIEL 9:24–27:
As Setenta Semanas — Cálculos e Interpretações
1. O TEXTO BÍBLICO - DANIEL
9:24–27
*"Setenta semanas
estão determinadas sobre o teu povo e sobre a tua cidade santa, para acabar com
a transgressão, para selar os pecados, para expiar a iniquidade, para trazer a
justiça eterna, para selar a visão e o profeta, e para ungir o Lugar Santíssimo.
Sabe e entende: desde a
saída da palavra para restaurar Jerusalém até o Messias, o Príncipe, haverá
sete semanas; e sessenta e duas semanas — será restaurada... Depois das
sessenta e duas semanas, o Ungido será cortado e não terá nada... E na metade
da semana fará cessar o sacrifício e a oferenda..."*
2. CÁLCULO CRISTÃO — 483 ANOS ATÉ JESUS
Fórmula: 7 semanas + 62
semanas = 69 semanas = 69 × 7 anos = 483 anos
Tabela:
|
Marco |
Data proposta |
|
Ordem de restaurar
Jerusalém (Artaxerxes Longuano, Neemias 2:1) |
444 a.C. |
|
+ 483 anos |
= ~ 30 d.C. |
|
"O Ungido será
cortado" |
Jesus crucificado ~
30–33 d.C. |
|
70ª semana |
ministério de 7 anos,
metade = 3,5 anos → duração do ministério público de Jesus |
Conclusão cristã: A profecia aponta exatamente para a época de Jesus — "cortado" = morto; "faz cessar sacrifício" = seu sacrifício substitui os do Templo.
3. INTERPRETAÇÃO JUDAICA — NÃO É O
MESSIAS DE JESUS
Objeções judaicas ao
cálculo cristão:
1.
"Ungido" não é um só: o texto diz
"até um Ungido, um Príncipe" e depois "depois de sessenta e duas
semanas, um Ungido será cortado" — dois ungidos distintos, não o mesmo. O
primeiro = governador ou sacerdote (ex.: Zorobabel), o segundo = figura
posterior, não necessariamente o Messias final.
2.
Cálculo falha na contagem dos anos: os anos
do calendário judaico/babilônico não coincidem exatamente com anos solares
julianos; há lacunas e sobreposições — 444 a.C. + 483 não dá 30 d.C. exatamente
(diferença de mais de 10 anos).
3.
"Fim de sacrifício" = coisa ruim,
não boa: para os profetas, acabar com sacrifício sem arrependimento = maldição
e desolação, não sacrifício perfeito. O texto continua: "abominação
desoladora" — isso é inimigo destruindo o Templo, não Jesus.
4.
Nenhuma das promessas foi cumprida: Daniel
9:24 lista SEIS resultados que deveriam ocorrer nas 70 semanas:
- ·
✔
Acabar transgressão
- ·
✔
Pôr fim ao pecado
- ·
✔
Expiar iniquidade
- ·
✔
Trazer justiça eterna
- ·
✔
Selar visão e profecia
- ·
✔
Ungir Lugar Santíssimo
Visão judaica: NENHUM
desses seis se cumpriu na época de Jesus. O pecado não acabou; a justiça eterna
não veio; o Templo foi destruído, não ungido. Logo — a profecia ainda está por
se cumprir no futuro.
4. QUADRO FINAL COMPARATIVO
Tabela:
|
Ponto |
Cristianismo |
Judaísmo |
|
Isaías 53 |
Jesus = Servo sofredor
pelos pecados |
Servo = Israel sofrendo
entre nações; leitura messiânica abandonada após séc. XII |
|
Talmud sobre Jesus |
Rejeitam como calúnias e
distorções |
Narram como desviador
que praticou feitiçaria; reconhecem múltiplas figuras chamadas Yeshu |
|
Daniel 9 |
483 anos = época exata
de Jesus; "cortado" = crucificação |
Cálculo impreciso;
"Ungido" não é o Messias final; promessas não cumpridas |
|
Messias sofre? |
Sim — primeira vinda
sofre, segunda vinda reina |
Não — quando vier, fará
TUDO de uma vez: paz, Templo, reino |
|
Por que divergem? |
Lêem "primeiro
sofrimento, depois glória" |
Lêem "glória e paz
vêm PRIMEIRO — sem sofrimento prévio" |
5. CONCLUSÃO COM RESPEITO
A divergência não é por
falta de conhecimento ou má vontade. É por causa de uma premissa fundamental
diferente:
- ✝️
O cristianismo diz: O Messias veio em DUAS FASES — primeiro sofre, depois
retorna em glória. Os profetas descreveram as duas fases sem separá-las.
- ✡️
O judaísmo responde: Os profetas descreveram UMA ÚNICA VINDA — e tudo
acontece de uma vez: paz, Templo, conhecimento de Deus. Se não cumpriu
TUDO, NÃO é o Messias.
E essa diferença nasce de como
se lêem as Escrituras, não de quem é melhor ou pior. Os dois povos amam o mesmo
Deus, leem os mesmos profetas e esperam a era de justiça — mas discordam sobre quando
e como ela chega.
Fontes Principais Consultadas:
- Tanaj / Bíblia Hebraica (Torá, Profetas, Escritos)
- Bíblia Cristã — Antigo e Novo Testamento
- Maimônides — Mishné Torá, Hilchot Melachim (Leis dos Reis) 11:4, 11:10–12
- Rashi — Comentário a Isaías 52–53
- Talmud Bavli — Sanedrin, Avodá Zará
- Chabad.org.br / Aish.com — Materiais educativos sobre fé judaica
- Wikipédia / Artigos acadêmicos — Visões judaicas sobre Jesus; Debate Nahmânides
- GotQuestions.org / CrossTalk — Perspectivas cristãs comparativas
- Pesquisa e formatação e estudos - Pastor João Amilton.